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Thursday, August 6, 2020

"CARTOLA" NAO CONCORRERA


"CARTOLA" NAO CONCORRERA
A Nação
1 de maio 1935

“Cartola” não concorrerá de verdade, ao nosso concurso para a
escolha do maior sambista dos nossos morros. Quem nos veio dar
essa noticia que muito nos entristece foi o proprio Cartola, que esteve
ante-hontem em nossa redacão, em companhia do vice-diretor da
Escola de Mangueira.

— Eu não concorrerei de maneira alguma ao concurso que vocés
estão realizando. Não estou de acordo com as bases do mesmo. Isso
porque poderá vencer qualquer um que não seja sambista que nunca
tenha composto um samba de verdade. Eu não quero com isto ofender
aos demais que concorrem, mas penso que estou acertado na minha de-
cisão. Se A NAÇÃO realiza-se um concurso onde o publico votasse por
sua vontade, pelo valor que  esse o compositor eu seria um concor-
rente. Mas nesse concurso não o serei. Sinto muito mais chorar
não posso...

Foi assim com uma declaração laconica, que “Cartola", o festejado
sambista dos nossos morros retira de uma vez por todas o seu nome
quando tanta gente o queria ver nesse grandioso concurso, que ele
erradamente julga falho. Esqueceu-se, “Cartola", que seu circulo de
simpatias era grande e que suas possibilidades de vencer eram iguais.
É um falta que lastimamos.

A MANGUEIRA DE LUTO
Faleceu ante-entem uma das maiores expressões do samba. Sa-
turnino Gonçalves o baluarde dos baluartes, encerrou sua
trajetoria. Até o ultimo instante, o samba foi seu maior cuidado.
Perde a Estação Primeira e a musica nacional, um dos seus maiores
cultores.

A "Cuica", a Morena, e o Samba



A "Cuica", a Morena, e o Samba
A Nação
11 de janeiro 1935

A cuica é bem a companheira
inseparavel do samba. Muita gen-
te ignora como nasceu a cuica.
João “Mina”, um preto velho, foi
seu inventor. Falou-nos sem vai-
dade, com a modestia desta gente
simples, que canta na alegría
na dôr.

Em 1905, no bairro do Agrião.
nos fundos de uma cocheira, foi
feita por “Mina” a primeira cuica
A experiencia deu-se com a caixa,
feita de uma lata de manteiga.

O nome primitivo foi cuita, em
homenagem a seus avós africa-
nos. Depois... talvez para faci-
lidade de pronuncia, passou a
chamar-se cuica.

O inventor, modesto como qua-
si todos, permanece incognito,
com o seu instrumento simples,
quasi analphabeto.

Mas, com a gloria de ter feito
parceria com o samba... Elle
tem uma cuica, toda de couro
com uma  resonancia digna de
nota.

Venceu, penetrou nos salões e
teve sua consagração. Agora, to-
dos ficam conhecendo o seu in-
ventor.

A "CUICA", O INSTRUMENTO ANALPHABETO



A "CUICA", O INSTRUMENTO ANALPHABETO
A NAÇÃO
12 de janeiro 1935

Adaptações interessantes de Paulo Campos,
um sambista de "escola" - De onde nasceu a
melodia das ruas - Contribuição a historia


Hountem publicamos um traba-
lho que é uma contribuição va-
liosa para os historiadores das
causas novas.

Tudo quanto se relaciona com
a “festa da alegria”, que em sua
parte puramente carnavalesca,
quer na contribuição que possa-
mos dar para que fique gravado
ainda mais, que carnaval é coisa
mais seria do que muita gente
pensa.

Foi João “Mina”, o Inventor
deste instrumento rude, a “cui-
ca”, que galgando sem reclame,
por seu valor proprio, dos “ter-
reiros" da “batucada”, onde
“raiou” o samba, sendo naquelle
tempo, estas reuniões clandesti-
nas, conseguiu chegar aos sa-
lões.

Vamos quasi fazer uma histo-
ja retrospectiva da origem do
nosso samba.

Assumpto por demais descu-
tido e contestado, nos enclinamos
a crér, ter sido o samba, uma
directriz variante das musicas
africanas, que nos legaram os
tempos coloniaes.

Foi o “Caxambu” e o “Ton-
go”, que no norte do Brasil por
transições e nova forma chegou
a actualidade com o nome de
"Cocô” e que no Rio, foi tam-
bem se transformando, sendo que
a forma mais aproximada, é o
antigo “Partido Alto”, de curto
côro, e versos de improviso, tira-
dos em descante; no centro uma
roda, para a qual eram chamados
os “mestres” da “Capoeira”, luta
muito typica, muito nossa, aliás
meio de defeza dos mais perfei-
tos, é que sem razão preterimos.
por outras importadas e menos
efficientes.

Para que se recorde, damos
dois córos, sendo que o segundo
é do “velho” Antonico, que dirige
hoje a Escola de Samba da Man-
gueira.

“Era meia noite, quando o va-
lente chego"

A cabrocha da bahia
No fazer carinho é má
Só para perguntar
O que tem Yá Yá"

Bis — Miná é có, ô, é cô minã é
(o que tem Yá, Yá)

O SAMBA CIVILIZA-SE

Transformando-se subindo os
morros, civilizando-se aos pou-
cos, indo do Estacio ao Morro de
S. Carlos, adaptando-se mais, fo-
ram introduzidos instrumentos
novos, que collocaram o tambor
em de inferioridade. Foram os
“tamborim”, a “Cuica”, os “pan-
deiros”, o “omelê”, os “ganzas”,
o cavaquinho, o violão, a clari-
neta, e por ultimo a flauta.

Cada dia se transformando,
passando por novas modifica-
ções, é justo que se destaque o
nome de Rubens Barcellos, ir.
mão do Alcebiadas (Bide), au-
tor de “Agora é cinza” e outras
composições victoriosas, já fale-
cido, foi um dos modificadores
da melodia popular.

Este foi sem favor, um dos in-
troductores do samba canção.

Depois novos compositores,
mais methodo, mais capricho,
mais melodia, mais esméro, e o
samba penetrou nos salões, en-
cantou muitos sarãos “chica”
venceu.

Surgiram novos astros, é hoje.
podemos dizer, uma victoria da
brasilidade.


Não se explicava que tendo nos
uma musica bem nossa, bem a
nosso feitio, fizessemos reclame
das importadas, muitas vezes
com peores lettras, e bem razão
nos assiste, quando  affirmamos
que melodia selvagens nos são
impingidas como obras primas.

Nossa sociedade comprebendeu
em tempo, a “ala moça” soube
ver-lhe os encantos.

Quem não se lembra das com-
posições que forçaram as barrei-
ras dos preconceitos”?

Vem, vem,
que cu dou tudo a você,
menos vaidade.
tenho vontade
mas é que não pode ser

Chegou o Noel, bem um crea-
dor de estylo, um verdadeiro.
aperfeiçoador da nossa musica.
Quem não se lembra do “Com
que roupa”?

Com que roupa? Eu vou
Ao samba que você me con-
vidou


O SAMBA NA SOCIEDADE

Depois de fazer-se impôr, ja
se dansa samba de casaca.

Ja se ouvem nos banquetes de
gala, as nossas coisas.

Venceu por seu valor proprio.

Já o vimos até no Municipal,
fazendo “frente' nos bailes que
a Prefeitura organizou, com clas-
sicos que sempre nos fazem re-
cordar nas temporadas officiaes.

Agora apparece-nos um novo
aperfeiçoador da “cuica”, o ins-
trumento que casou com o samba

A “CUICA” O INSTRUMENTO
ANALPHABETO QUE SE APERFEIÇOA


Um authentico cultor do sam-
ba espontaneo, pensou e realizou
um grande melhoramento na
“cuica”.

Pela photographia acima, po-
de-se bem vêr as duas “chaves”
que conseguiu collocar na caixa
de som.

Com “tarracha” com os pan-
deiros, estas em numero de 5,
consegue já fazer o instrumento
vibrar numa tonalidade certa, na
medida dos accordes que a mu-
sica tiver.

E' mais uma contribuição nos-
sa para augmentar as que já te-
mos dado.

Assim nos falou Paulo Campos
este novo aperfeiçoador:

— “Por ser um instrumento
rude, a que tinha grande ami-
zade, por observações nos "saxe”,
cheguei a conclusão que ada-
ptando á caixa, uma serie de
“chaves”, faria chegar à tonali-
dade que quizesse. Assim proce-
di, colhendo os melhores resulta-
dos. As “chaves”, são como as
do outro instrumento, forradas
de lã, para melhor vedarem o
som.

Coisas bem interessantes se
podem dizer a respeito da cui-
ca", e faço questão de enume-
ral-as.

A haste central pode ser de
flexa, pouco aconselhavel por sua
pouca resistencia, de “guachim-
ba", cuja casca é empregada na
cordoalha, e de taquara como
mais se usa.

A “cuica” deve ser tocada com
um tecido de seda, por esta fa-
zenda a que mais faz sobresair
o som.

Deve ser “encourada” com
pelle de carneiro, por ser a mais
resistente e mais fina, se pres.
tando melhor que qualquer ou-
tra”.

Deixamos com isto mais esta
collaboração espontanea, que se
utilizem os estudiosos do as-
sumpto.